É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir.
.posts recentes

. A dama de salmão

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Junho 2009

. Março 2009

. Janeiro 2009

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Junho 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Setembro 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Setembro 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Janeiro 2005

. Novembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

.pesquisar
 
.Fevereiro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
.tags

. todas as tags

Quinta-feira, 31 de Março de 2005
A dama de salmão
A primeira coisa de que me enamorei foi da forma que cruzou as pernas. Muito suavemente, como se temesse quebrá-las, como se fossem de gelo: levantou uma perna e passou-a sobre a outra: ficaram as duas em contacto, do joelho até ao pé. Nem queria acreditar: imediatamente me invadiu o cérebro um emaranhado de imagens de tias e primas, e fotos em sépia de uma avó nos anos vinte, de chapéu redondo e saia curta, com as pernas unidas da mesma forma que a minha companheira de compartimento que, depois de uns momentos, para descruzá-las alçou uma para a frente e, durante um segundo, toda a perna (da púbis ao pé) esteve completamente recta. Paralelas, inclinou-as para um lado, perfeitas e esplêndidas.

Umas pernas como aquelas podiam fazer a felicidade de quem pudesse partilhá-las (e partilhá-las queria dizer observá-las a todo o momento, acariciá-las sem descanso, nuas por debaixo da seda das meias...); podiam provocar guerras infinitas, nova Helena de Tróia com pernas de Marlene Dietrich, que olhava pela janela a interminável sequência de prados verdes e poucas casas, perante uma cortina de árvores metade ocres metade brancas.

Em Honefoss, o comboio esteve parado durante muito tempo. Fizeram-nos sair. Não entendi por que razão tínhamos de mudar de comboio, mas como ninguém protestou aceitei os motivos da companhia. Os vagões em que tínhamos vindo afastaram-se rapidamente e cinco minutos depois chegaram os novos. Todos se apressaram a subir e cada um sentou-se onde quis. Eu, que tinha perdido a esperança de continuar a contemplar o jogo de pernas da senhora, afastei-me até um dos últimos vagões. Encontrei um compartimento vazio e instalei-me. Tirei da mala o guia azul e afundei-me na leitura de cotas, povoações e possíveis restaurantes.

A tranquilidade acabou em breves instantes: alguém abriu a porta do compartimento e a partir daquele momento não houve mais que um abafado mas contínuo tumulto de bagagens e criaturas. Afundei o nariz no livro, tratando de abstrair-me em considerações sobre a qualidade do salmão nas ilhas costeiras, das quais me distraiu a sensação de estar a ser observado. Levantei a cabeça. À minha frente, uma criança pedia explicações sobre uma revista de banda desenhada a uma senhora que aparentava ser a sua mãe e não estar de bom humor. Passei os olhos, vagamente, em redor do compartimento: sentada ao meu lado estava a dama esplêndida, a do jogo de pernas. Surpreendi-me.

(O resto do compartimento estava vazio e tinha que se ter sentado precisamente ao meu lado!)

Observei-a de soslaio: olhava para a frente, aparentemente para a criança, que insistia que a sua mãe lhe explicasse os bonecos. Abri o guia azul. O arenque...

Em Sokna sairam a criança e a mãe e entrou um velho. Enquanto o comboio saía da estação, notei uma pressão na perna. Ela (a dama das pernas cor de salmão) roçava uma das suas extremidades contra uma das minhas! Não tardei muito a reagir: não só acedi à carícia como a incrementei. De soslaio, pareceu-me que sorria. O que devia eu fazer agora? Criei esperanças de que, na primeira povoação importante, o velho saísse e ficássemos a sós. Mas passaram muitas estações e o velho nem se movia. Tinha os olhos fechados e apoiava a cabeça no apoio do assento. Dormia tão descontraidamente, num silêncio branco, que me perguntei se não teria morrido. E se deixasse passar a estação em que queria sair? E se tinha de sair exactamente nessa em que estávamos parados e, adormecido, não se tinha apercebido? Quem sabe até fosse uma obra de caridade despertá-lo.

Estrangeiro sensato, preferi calar-me, sobretudo agora que o nosso compartimento tinha aumentado de população: uma jovem com uma mochila exagerada e uns olhos claríssimos. A minha perna e a da dama continuavam siamesas e, ao que parecia, nenhum dos dois possuía engenho suficiente para levar a bom porto os nossos desejos. Já há algum tempo que o comboio estava em andamento quando reuni coragem para perguntar-lhe se ia para muito longe. Ao princípio nem me olhou e, quando repeti a pergunta, virou a cara para mim (e agora, vendo-a tão perto, dava-me conta que era uma mulher belíssima): sorriu-me com lábios de sangue e respondeu-me em norueguês. (As minhas esperanças de que pertencesse à considerável parte da população que fala inglês como segunda língua cairam por terra.) Parei, embaraçado. Acrescentou algo mais e ficou à espera de uma resposta que eu não podia dar-lhe. A jovem lia uma revista de moda e parecia totalmente alheada do mundo que a rodeava. O velho, que antes me tinha parecido morto de tão adormecido, abriu os olhos e serviu de tradutor: a senhora pedia desculpa por não falar o meu idioma. Por um momento estive a ponto de dizer-lhe que o idioma a que se referia não era o meu, mas sim um emprestado. O velho ofereceu-se para continuar os seus serviços de tradução. Baralhei-me (imaginei-me, com um joelho no chão, a declarar o meu amor através de um tradutor), não soube o que dizer-lhe e anunciei ao velho que não, agradecendo educadamente. Logo em seguida fez-se um silêncio algo tenso. (As pernas, apesar de tudo, continuavam juntas.) O velho fechou novamente os olhos, mas por pouco tempo: chegados a Torpo, despediu-se e saiu do comboio.

Entre Torpo e Al, deixei cair lentamente a minha mão sobre a da mulher e, com as pontas dos dedos, acariciei-lhe o dorso. Pareceu-me que mexia as pálpebras. Girou a mão de tal maneira que, ao apertarem-se, ambas ficaram unidas como metades de uma noz. A rapariga em frente continuava passando as folhas da revista com imenso ruído e olhava de quando em vez pela janela. De repente fechou a revista e deixou-a sobre o assento do lado. Ao olhar-nos de passagem, deteve os olhos dois segundos nas nossas mãos e continuando, discreta, dirigiu o olhar para a mochila, esticou uma correia, submergiu-se novamente nos lagos da paisagem e bocejou. O anoitecer tardava em fazer-se noite.

Em Geilo tinha entrado um homem de meia idade, com uniforme verde e aspecto de guarda florestal. As minhas possibilidades reduziam-se. Tomei uma decisão: levantar-me com a mão da dama na minha e sair para o corredor, onde poderíamos pelo menos, se não falar, entendermo-nos com mais facilidade. Mas o risco estava no caso de ela não querer aceder ao jogo e me dissesse algo que eu não poderia entender (apesar de os outros ocupantes entenderem, e era isso que me angustiava). A favor da minha ofensiva jogava o factor de que, na realidade, a iniciativa tinha sido sua e que a única acção que eu tinha empreendido (a de tomar-lhe a mão) não tinha sido rechaçada nem pouco mais ou menos. Mas incomodava-me que não se desse conta da minha inferioridade de condições, estranho num país frio. Ao jogar no seu terreno, era ela quem tinha de decidir o que fazer. Ou quem sabe lhe bastasse o toque das mãos e o roçagar das pernas?

Levantei-me com a sua mão na minha. Durante um segundo, pensei que não se levantaria: olhou-me surpreendida e depois sorriu. Saiu à minha frente. Caminhámos pelo corredor até ao fundo do vagão. Na plataforma, começou a dizer palavras muito lentamente e, apesar de a ela lhe parecerem elementares, para mim era como se falasse em norueguês. (E agora vejo que esta é uma piada pouco engenhosa.) Era evidente que devíamos aclarar qual o terreno linguístico (e aqui renuncio à piada fácil) que nos seria propício. Soletrando, expus-lhe as minhas quatro possibilidades. Compreendeu-me, porque ela mencionou três, que eu também compreendi, para minha infelicidade (e suponho que também para a sua), uma vez que nenhuma das suas três coincidia com as minhas quatro. Como podia eu, então, dizer-lhe que estava louco pelas suas pernas; que desejava abraçá-la e acariciá-la antes que fugisse de mim em alguma estação imprevisível; que a sua iniciativa de roçar-se na minha perna tinha sido o gesto mais agradável que alguém me tinha feito desde há praticamente uma semana?

Beijámo-nos fortemente (e aquele era o primeiro beijo que dávamos: a abertura da sinfonia), num abraço que durou tanto como a ponte que atravessávamos e que acabou ao abrir-se a porta que comunicava com o corredor: a jovem do nosso compartimento dirigia-se para a casa-de-banho que, agora me dava conta, estava na plataforma onde nós os dois perdíamos tempo, beijando-nos como miúdos, sem chegar a feitos mais substanciais. E enquanto a jovem se fechava na casa-de-banho, pensei que bastava esperar que saísse para poder desfrutar daquele refúgio amoroso que nos era entregue de bandeja. Dez minutos depois a jovem ainda não tinha saído. Excitava-me pensar a que deliciosos actos se podia estar a entregar. Teria gostado de insinuá-lo à minha amiga desconhecida, que agora se dedicava a repetir palavras (talvez de amor, de sexo furioso?) em cada uma das línguas que dominava, para ver se eu as entendia; mas não havia nada a fazer: todas me soavam a gargarejos glaciares, a ecos de um fiorde. E para lá da janela, planícies nevadas.

Muitos minutos mais tarde passou o revisor e pediu os bilhetes. Com as pressas, tínhamos deixado as malas no compartimento e tivemos que ir buscá-las. O guarda florestal já lá não estava. O revisor cumpriu o seu dever e foi-se embora. Voltávamos a estar sós. Mas quando comecei a acariciar-lhe um joelho, entrou a jovem. Pensei, assim, que muito provavelmente a casa-de-banho já estaria vazia. Mostrei a intenção de me levantar, mas a dama disse alguma coisa e continuou sentada. Devo ter parecido bastante perplexo, porque a jovem viu-se obrigada a traduzir-me a frase:

Disse que saía na próxima estação.

Tirei-lhe a mala para o chão. O comboio parou com mais ruído que nunca. Despediu-se com um beijo na face e acrescentou umas quantas palavras:

– Disse
, traduziu a rapariga, que lamenta muito não o ter conhecido em circunstâncias mais propícias.

– Diga-lhe que eu digo o mesmo,
disse-lhe.

Traduziu. A dama dos meus sonhos sorriu e desapareceu pelo corredor. Sentei-me apenas por uns segundos, porque em seguida decidi que o mundo não foi feito para os cobardes: peguei na mochila e na mala e dirigi-me para a porta. A jovem, com cara de não ter entendido a minha decisão, olhou-me boquiaberta. No cais senti-me perdido: a mulher não estava, não havia ninguém. Entrei no edifício da estação: estava vazio. Saí por trás: havia uma praça com placas de néon e sem gente. A dez metros da porta da estação, a minha ex-vizinha de assento, a dama de pele cor de salmão, abraçava um homem, beijava um rapazito e entrava num volkswagen. Dei meia volta depressa e corri: só o que me faltava agora era perder o comboio! Subi justamente quando arrancava. Voltei ao meu compartimento. A jovem ficou surpreendida. Deixei a mala na consola e saquei o guia azul da mochila. A jovem colocou os pés sobre o assento, abraçou as pernas e, olhando para mim, riu-se com um riso que então entendi num sentido que depois acabou por não ser o correcto. Disse:

– Lamento ter frustrado o vosso flirt, mas tive de esconder-me na casa-de-banho porque não tenho bilhete.

E estava sentada, agora com as pernas perfeitamente cruzadas: paralelas, perfeitas e esplêndidas... De madrugada, denunciou-se acidentalmente: ao ir buscar o pacote de tabaco da sua mochila, caiu ao chão o bilhete de comboio. Fingi que olhava pela janela.


Conto retirado da versão castelhana do livro "...Olivetti, Moulinex, Chaffoteaux et Maury", editado em Barcelona em 1980 por Edicions dels Quaderns Crema. Tradução feita por mim mesmo.
publicado por ladoc às 04:01
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
blogs SAPO
.subscrever feeds