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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008
Ignorância?

(...)

Quanto mais vasto é o tempo que deixámos para trás de nós, mais irresistível é a voz que nos convida ao regresso. Esta proposição tem o ar de uma evidência, e no entanto é falsa. O homem envelhece, o fim aproxima-se, cada momento se torna cada vez mais querido e já não há tempo a perder com recordações. É preciso compreender-se o paradoxo matemático da nostalgia: o tempo do seu poder maior é a primeira juventude, quando o volume da vida passada é perfeitamente insignificante.
(...)


(...)
A vida do homem dura em média oitenta anos. É contando com esta duração que cada um imagina e organiza a sua vida. O que acabo de dizer é uma coisa que toda a gente sabe, mas raramente nos damos conta de que o número de anos que nos é atribuído não é um simples dado quantitativo, uma característica exterior (como o comprimento do nariz ou a cor dos olhos), mas faz parte da própria definiçao do homem. Alguém que pudesse viver, com toda a sua força, digamos, cento e sessenta anos, não pertenceria à mesma espécie que nós. Já nada seria semelhante na sua vida, nem o amor, nem as ambições, nem os sentimentos, nem a nostalgia, nada. Se um emigrado, depois de vinte anos vividos no estrangeiro, regressasse ao país natal com cem anos de vida ainda à sua frente, pouco experimentaria da emoção de um Grande Regresso, provavelmente para ele isso nada teria de um regresso, não passando de mais uma das voltas do longo percurso da sua existência.
Porque a própria noção de pátria, no sentido nobre e sentimental da palabra, liga-se à relativa brevidade da nossa vida, que nos proporciona muito pouco tempo para que nos apeguemos a outro país, a outros países,a outras línguas.
As relações eróticas podem preencher toda a vida adulta. Mas se essa vida fosse muito mais longa, não asfixiaria o cansaço a capacidade de excitação, muito antes de as forças físicas declinarem? Porque há uma enorme diferença entre o primeiro, o décimo, o centésimo,o milésimo ou décimo milésimo coito. Onde fica a fronteira para lá da qual a repetição se torna estereotipada, senão cómica, ou até impossível? E transposto esse limite, em que se transformará a relação amorosa entre um homem e uma mulher? Desaparecerá? Ou pelo contrário, considerarão os amantes a fase sexual da sua vida a pré-história bárbara de um verdadeiro amor? Responder a estas perguntas é tão fácil como imaginar a psicologia dos habitantes de um planeta desconhecido.
A noção de amor (de grande amor, de amor único) nasceu, também ela, provavelmente, dos estreitos limites do tempo que nos é dado.
(...)


(...)
Também a memória não é compreensível à falta de uma abordagem matemática. O dado fundamental é a relaçao numérica entre o tempo da vida vivida e o tempo da vida armazenada na memória. Nunca se tentou calcular esta relação e nao existe de resto qualquer meio técnico de o fazer; no entanto, sem correr grande risco de me enganar, posso supor que a memória nao guarda mais que um milionésimo, um bilionésimo, em suma, uma parcela perfeitamente ínfima da vida vivida. Também isto faz parte da essência do homem. Se alguém pudesse reter na sua memória tudo o que viveu, se pudesse a qualquer momento evocar fosse que fragmento do seu passado fosse, nada teria a ver com os humanos: nem os seus amores, nem as suas amizades,nem as suas cóleras, nem a sua faculdade de perdoar ou de se vingar se assemelhariam aos nossos.
Nunca acabaremos de criticar os que deformam o passado, o reescrevem, o falsificam, que dilatam a importância de um acontecimento, calam a de outro; estas críticas são justas (não podem deixar de sê-lo), mas não têm grande importância se não forem precedidas de uma crítica mais elementar: a crítica da memória humana enquanto tal. Porque que pode esta, pobre dela, na verdade? Não é capaz de reter do passado mais do que uma miseráve lparcelazinha, sem que ninguém saiba por que motivo justamente esta e não outra, uma vez que tal escolha, em cada um de nós, se faz misteriosamente, à margem da nossa vontade e dos nossos interesses. Nada se compreenderá da vida humana enquanto se permitir em escamotear a primeira de todas as evidências: uma realidade, tal como existia quando existia, já não existe; a sua restituição é impossível.

(...)

 

 

Excertos retirados do livro "A Ignorância", de Milan Kundera.

publicado por ladoc às 12:00
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