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Quarta-feira, 28 de Março de 2007
Xavier e Sara - Parte V
Chegou à hora marcada. Estava impaciente. Desta vez já se tinha decidido que seria a derradeira; o encontro teria de se realizar. O desaire da primeira tentativa não lhe retirou a ansiedade para esta vez.

Receava que Xavier não aparecesse, como forma de represália – porventura, merecia-a! Ainda para mais, para aumentar a tensão, nem podia demonstrar que o reconhecia. Fingiria surpresa? Agiria com uma indiferença aparente? Enfim, lá vinha ele. Olhou em volta, como se aguardasse outra pessoa. Desta vez levava bem à vista a camisola branca. E tivera o cuidado de se colocar exactamente no mesmo sítio onde ele a esperou da outra vez. 10 minutos atrasado (seria uma forma de ‘protesto’?). Vinha com um ar como que de indiferença, casualidade quanto ao facto de aparecer por ali. Como se não tivesse nada mais para fazer, e decidisse sair de casa, e começasse a conduzir o carro, e por acaso passasse por ali, e estacionasse, e se dirigisse para a cafetaria, e se preparasse para beber um café a sós.

Pouca distância os separava. Xavier nem olhava em volta, em busca de Sara. Os olhos bem fixos nos passos que dava. Sara tinha agora vontade de ir ter com ele – mas desmascarar-se-ia!

Xavier parecia querer passar por Sara sem a reconhecer, sem olhar para a camisola branca, sem identificar o sinal que pela segunda vez servia de santo-e-senha, mas que só agora se mostrava. Continuava a caminhar na direcção de Sara, sem mostrar qualquer sinal de reconhecimento, ou mesmo de dúvida se seria ela – afinal, ele não a tinha visto ainda!

O olhar de Xavier cruzou-se finalmente com a camisola de Sara. Ela reparou, pelo canto do olho. Esforçou-se, e conseguiu não reagir. Em vez disso, fez um ar ansioso (que era verdadeiro!), e olhou em volta, como se esperasse alguém que não sabia quem era (o que em parte também era verdadeiro).

- Olá, Sara!

- Xavier?? Olá!

(beijinho-beijinho)

- Que bom conhecer-te, finalmente!

- É verdade! Desta vez é que foi.

- Vamos até lá dentro, então? Está frio aqui fora.

- Vamos lá.


Quarenta minutos passaram. Xavier olhou para o relógio. Informa Sara.

- Desculpa, mas vou ter de me ir embora. Tenho uma coisa marcada para as oito horas.

- A sério? Que pena! E eu que já pensava se não poderíamos jantar hoje.

- Combinei uma coisa com a minha namorada.

- Não sabia que namoravas...??!! Mas também, ainda não tínhamos falado sobre isso...

- Pois é... mas é coisa recente... de há uns dias... é um início... vamos ver o que vai dar.


Xavier sorri.


Despedidas.


Sara vai para casa. Parece-lhe vazia. Sente-se só. Controla-se para não se insultar a si própria.

Xavier saiu como que apressado. Quinze minutos depois está em sua casa, sozinho. Procura não pensar se fez bem ou não em inventar aquela história.

13/10/2000
FIM
publicado por ladoc às 15:43
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Quinta-feira, 22 de Março de 2007
Xavier e Sara - Parte IV
Ele corria atrás dela. Ela fugia sem olhar para trás. Ele nem queria apanhá-la, apenas vislumbrá-la. Nem ela se deixava ver, nem ele a conseguia ver. Mesmo a correr atrás dela, não conseguia distinguir nenhum traço físico – o andar, as pernas, os braços. Sabia que ela corria nua, mas não a via. Sabia que se chamava Sara, apesar de não responder por esse nome – nem por nenhum. Estava a tornar-se recorrente.

Nem a vira (não só no sonho, mas também na realidade) – mas não parava de pensar nela. O agnosticismo de Xavier tremeluzia nestas alturas. Não concebia sequer uma justificação coerente e racional para o seu pensamento constantemente direccionado para Sara – e o pior é que ele procurava-a (à explicação).

Xavier para Xavier: “Pára com isto! Enlouqueces-me por nada!?!?”

Sara para Sara: “Que estranho! Mas que ideias são estas que me passam pela cabeça???”


Nunca se arrependia das decisões tomadas. (Nunca? Acreditas mesmo que as palavras ‘Nunca’  e ‘Sempre’ se aplicam assim??? Nunca! Nem pensar!!!).

Não estava arrependida de se ter ido embora. Mantinha as mesmas dúvidas. O seu espírito aventureiro continuava adormecido, num recôndito esconderijo. Haveria algo a impeli-la para aqueles raciocínios?? Misticismos?? Sim, era dada a eles. Aceitava-os, ou mais que isso, confortavelmente. Cria em algo, além.

Sara para Xavier: “Mas o que tens que me desperta estas ideias???”

Xavier para Xavier: “O melhor que tenho a fazer é esquecer isto.”

O orgulho impedia-o de telefonar para Sara. Não recebera resposta à mensagem e agora, após quase uma semana, nem mais voltara a tentar contactá-la. Não aparecia nos chatrooms.

Sara ouvira a mensagem imediatamente após a sua ‘fuga’. Não sabia o que responder. Não respondeu. Tinha-a guardada no seu atendedor. Ouvira-a algumas vezes mais, na busca por uma hesitação, um traço de ansiedade.

Os dias pareciam-lhe mais enfadonhos, mais tristes, mais arrastados. O que lhe faltava, afinal? Começava a pensar que de facto aquele encontro poderia ter trazido algo, nem que fosse uma experiência nova que espoletasse novas e mais fortes emoções. Teria feito bem??? Talvez não devesse sequer ter ido lá... afinal, parece que isso ainda lhe causou maior ansiedade. Poderia ter declinado o convite, ou alongado o período de não-conhecimento pessoal. Agora, depois de já ter parecido inevitável o encontro, complicavam-se os papéis. Conhecerem-se passou a ser realidade quando combinaram o encontro, apenas não se concretizou de facto. E tornava-se incomportável a situação dos factos reais não corresponderem à realidade.


- Olá, Xavier. Sou eu, a Sara.

- Ah! Olá! (casual)

- Está tudo bem?

- Sim. (seco)

- Estás zangado?

- Eu? Não!! (indiferente)

- Apareceste lá?

- Sim, estive lá. (inexpressivo)

- Pois... Sabes... eu não pude ir...

- Ah sim?? (frio)

- ... e depois não te pude telefonar logo...

- OK, não faz mal. (distante)

- Desculpas-me?

- Claro, tudo bem!!... (difícil)

- E... ... ... gostava muito... se... ... pudéssemos combinar... qualquer coisa... ... ... ... ... ... o que achas?... Pode ser??...

- Acho que sim, pode ser... (interrogativo)

- Então... e como queres combinar?

- Como quiseres. Diz tu. (semi-amargo)

- Pode ser amanhã, no mesmo sítio?

- Amanhã não me dá jeito... só depois. (desinteressado)

- OK, então. Às sete, pode ser?

- Tudo bem. Até lá então. (acutilante)

- Ah!  Eu levo de novo uma camisola branca, OK? Tchau, então. Um beijinho.

- Tchau. (click)


(continua)
publicado por ladoc às 21:31
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Quinta-feira, 15 de Março de 2007
Xavier e Sara – Parte III
Ela nem pensava em conhecer alguém desta forma. Os chats eram um passa-tempo, uma forma de matar os tempos mortos do trabalho. Os seus nicks eram sempre diferentes, não pretendia ser reconhecida em caso algum. Não pretendia criar aquelas ‘amizades virtuais’ (“o que será isso??”), nem iniciar conversas sobre si ou sobre a outra pessoa. Ficava-se bem pelas banalidades, ou a falar de assuntos gerais (escultura e dança eram recorrentes).
Quando se deparou com Xavier (Lx29M), e leu o seu ‘Olá’, decidiu responder. Porque sim. (Teria de haver alguma razão especial???).

Foi agradável. “Um tipo simpático”, pensou. Sem aquelas pressões de querer saber coisas sobre a sua vida. As banalidades soaram-lhe tão banais, como ela gostava. “E inteligente, também”. Reparou no cuidado que ele tinha, na capacidade para ser coerente na forma de escrita.

O congestionamento da sala de chat impeliu-a à sugestão para falarem em privado. Ele aceitou. Sem ansiedades (aparentes). Foi boa a conversa, sem nada de especial (mesmo como ela gosta). Sugestão de se encontrarem noutro dia, naquela sala. “OK, porque não?”.
Um número de telefone. Ela adorou a iniciativa de Xavier. Sem impor nada, apenas digitou os algarismos. Porque não aceitá-lo, se foi assim tão simples, tão natural? Iria telefonar-lhe, um destes dias. E assim o fez.

“E porque não??”

Sara tinha o desejo secreto que algo acontecesse. Só não sabia o quê, ainda. As coisas amorosas tinham parado na sua vida. Não teve ainda grandes ilusões. E nem grandes desilusões. Talvez por isso lhe parecesse sempre que as relações amorosas eram coisas banais. Sim, banais. Era neste mundo que aprendera a viver. Ou melhor, ainda não aprendera, nem nunca aprenderia. Mas era por aí que circulava o seu rame-rame diário. Dava-se bem com a rotina.

Saíra de casa dos seus pais para estudar na capital, e com o tempo as visitas foram rareando. Custava-lhe cada vez mais ouvir as frases tradicionais “Então, filha, há novidades?”, que ocultavam “Já arranjaste um namorado a sério? Não estás a ficar mais nova!”. O amor dos pais é assim, tão cego que chega a cegá-los para a realidade. E ela que continuava a ver no amor apenas uma série de relações falhadas (duas apenas, mas as suficientes, porque não surgiram mais até agora).

Tinha a sua dose normal de apaixonados – as mulheres costumam tê-los, não é? Ainda que sejam aqueles que querem apenas levá-la para a cama, ou aqueles que pensam que “com esta é que eram capazes de atinar”. Ela dificilmente se iludia, vivia sem grandes sonhos ou esperanças. E talvez por isso tenha aprendido a apegar-se ao banal. Grandes emoções passavam ao lado. Arrebatamentos não. (Era uma forma de defesa que ela tinha arranjado, inconsciente talvez, mas o marasmo também pode ter as suas virtudes.). (E quem poderia censurá-la por isso?).

Sara sabia ter um espírito aventureiro, também. Mas estava adormecido, pouco temerário. O que poderia despertá-lo? Não o sabia, mas se algo surgisse quem sabe se ele acordaria de facto? Não pensava se seria importante estar mais ou menos aberta para essa situação, se aparecesse. Estava tão segura que não surgiria nada disso, e essa segurança transmitia-lhe uma certeza e uma garantia de estabilidade que não queria abandonar.

Claro que, como mulher bonita que é, ouve vezes sem conta “Mas como não tens ninguém?”. Aprendeu a sorrir apenas e a evitar a resposta, não lhe faz sentido a típica reacção do “ainda não encontrei ninguém que valesse a pena”. Ou talvez lhe fizesse tanto sentido que ela nem queria verbalizá-lo. (Como posso saber? Sou apenas narrador, impessoal, distante, observador, mas sem detector de sentimentos. E já alguém disse atrás que as verdades absolutas não existem – e tenho a certeza absoluta disto.).

Sara preparou-se para o encontro com Xavier. Vestiu a camisola branca que lhe tinha dito, mas teve o cuidado de escolher um casaco que a tapasse. Saiu. O metro parou na estação de destino. Estava em cima da hora combinada. Seria ele pontual? Colocou-se a uma distância confortável do local combinado. Teve dúvidas: seria ele já ali, à espera? Contava impressionar-se com o aspecto físico de Xavier – pela positiva ou pela negativa, tanto faz. Mas nada! Poderia sentir alguma emoção de finalmente o ver. Mas não, nada! Nem se apercebeu que não tinha disposição (ou capacidade, ou abertura, ou disponibilidade, ou coragem, ou vontade...) para se impressionar... com nada.

Espreitou-o por mais de 10 minutos.

“Não parece nada ansioso. Provavelmente, já fez isto dezenas de vezes...”

Achou que não seria ainda hoje que o iria conhecer. Não ouvia, não sentia nenhum sinal para o fazer.

“Falta o click!”

Sara para Sara: “Mas que click? Estás à espera que isso apareça assim, vindo do céu???”

Na dúvida, foi-se embora.
publicado por ladoc às 22:13
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Domingo, 11 de Março de 2007
Xavier e Sara – Parte II
E lá estava ele. Nem sabia porque estava ansioso. Mas estava! O local combinado era onde ele estava. Chegou com 7 minutos de antecedência. Assim, teria ela o papel de o reconhecer, enquanto ele ficaria com o papel de se fingir pouco ansioso à chegada de Sara. Assim que lobrigava à distância uma cor branca, impacientava-se, “Será ela??”. Só sabia a cor da camisola. Mas tinha explicado bastante bem como iria vestido: calças pretas de ganga, t-shirt castanha e ténis castanhos.

Três minutos apenas. Nem sabia se ela era pontual.

“Bolas, onde é que eu me vim meter? Mas para quê??”

Não estava assim desesperado à procura de mulher. Nem é feio, Xavier. Culto, interessante. Mas o prazer pelo risco! OK, e também a necessidade de ocupar os tempos mortos no trabalho. Sempre lhe dava para ‘treinar’ os dotes de sedução (o principal ponto fraco de Xavier). Mas nunca tinha levado aquilo a sério. E também não seria por ter um encontro que alguma coisa iria mudar.


Mas ele queria que mudasse!!!!! Não sabia bem o quê, mas queria mudar algo, não se sentia feliz. Tinha um vazio. Um oco. Espaço que sabia ser desocupado por si, “não será uma mulher que preenche isto”... mas não custa tentar.

Xavier não acreditava no destino. Foi o destino que lhe ensinou isso. As experiências da sua vida tinham-no levado até lá.

As suas histórias amorosas anteriores nada tinham de especial, apesar de terem muito a contar. Há já muito tempo que Xavier não se apaixonava. E começava a achar isso difícil (desencanto???). Estava bem na vida, gostava do emprego que tinha, amigos fantásticos, o seu tempo preenchido. Não perdia já tempo com pensamentos e divagações inúteis, que pudessem deprimi-lo. Dedicava-se à lida da casa, ao emprego, aos amigos. Continuava a gostar das mulheres, mas parecia não sentir já aquela oculta excitação de sentir algo por alguém, alguma coisa de Especial. Os seus últimos casos foram apenas acidentes de percurso, ou acontecimentos de uma noite, ou acasos amorosos. Quereria ele um caso, ou ficar-se-ia por um acaso? Queria apenas deixar de se preocupar com isso. E que o deixassem em paz. (Mas como pode ele querer isso se de facto ninguém o atormentava, senão ele próprio??).

Deixara as reflexões sobre a vida, eliminando a ansiedade de tudo querer saber, de tudo poder prever, de em tudo poder intervir, de tudo fazer para ser feliz. Os frutos do acaso e do banal começavam a ter um sabor aliciante na sua vida.

“Que bom que é nada pensar!!!”

Decidira que o encontro com Sara não iria ser um marco na sua vida. Ao mesmo tempo que decidia isso, ouvia uma voz ao fundo, a dizer-lhe que isso não era, nem nunca seria, uma decisão dele. E se Sara o despertasse para coisas únicas, que ele nunca tinha antes sentido??? Não saberia como reagir! E porventura ficaria enredado em emoções novas, em sensações estranhas (para ele). E talvez isso o fizesse sentir-se vivo. (Há quanto tempo é que ele não se sentia vivo?).


Faltava um minuto para o encontro com Sara. Mas nem sabia se ela chegaria (a horas ou não). E o seu relógio não era de fiar. Não estaria atrasado (Xavier, não o relógio)? E se ela já estivesse lá?? Olhou em volta. Espreitou o relógio do homem que passava.

Xavier para Xavier: “Tem calma! Está tudo bem!”
Xavier para Xavier: “Estou calmo. Não me chateies agora!!”

Aprendera a valorizar outras coisas. Parece que têm razão (eles...) ao dizer que as privações nos fazem aprender. A escassez torna-nos mais fortes. O sofrimento faz-nos criar defesas. A tristeza ensina-nos a ultrapassar. Redundâncias. (Xavier detesta verdades absolutas).

Passam já 5 minutos da hora combinada. Sara não aparece. O telefone. Não toca. Decide esperar um pouco mais (para não parecer ansioso).

10 minutos.

15 minutos. Cede. Telefona. Atendedor. Não deixa mensagem.

25 minutos. Desiste. Vai-se embora. No caminho de volta, vai observando as pessoas. Ninguém de camisola branca (“Que estranho!! Há sempre alguém com camisola branca”).
Já no carro, decide tentar de novo o telefone. De novo atendedor. Deixa mensagem. Que não sabe o que se passou, se aconteceu alguma coisa. Que não ia esperar mais, que ficaria para outro dia. Que ela lhe telefonasse. Que combinariam para outro dia.

(continua)
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Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007
Xavier e Sara – Parte I
Xavier e Sara não estavam felizes. Talvez por se não terem conhecido, ainda.

Este seria o primeiro encontro; já tinham falado ao telefone várias vezes, sempre e só sobre banalidades; começaram por “...mas trabalhas em que zona de Lisboa?” e foram até ao “...e como correu o teu dia?”.

Xavier, a caminho, sentia a falta da voz telefónica (versão digital) de Sara. Sorria ao pensar que não fazia ideia de como seria ela – também, é natural!, nunca passaram por aquela de “descreve-te fisicamente”.

Receava (e ao mesmo tempo ansiava) que ela não aparecesse. Xavier tinha-se preparado com a pompa devida para a circunstância: roupa casual, a normal no seu dia-a-dia, mas desta vez teve cuidados com as combinações das cores (não estava totalmente seguro, porém, da escolha dos ténis...); barbeou-se cuidadosamente de manhã; o perfume nos locais certos para a ocasião; cabelo penteado há uma hora, que lhe dava o ar informal que ele precisava para disfarçar a ansiedade. Espreitou o nariz no retrovisor e confirmou (e reconfirmou) a inexistência de muco seco.

Recordava-se do último telefonema tão bem como do primeiro; tinham sempre aquele tom curioso-receoso-ansioso-cauteloso. De início, a voz pareceu-lhe inexpressiva e vazia; mas depois, à medida que a conversa se foi tornando mais íntima (depois de “...mas trabalhas em que zona de Lisboa?” e antes de “...e como correu o teu dia?), sentia já saudades dela durante o dia.

“Ao telefone as coisas correm lindamente...”, disse Xavier a um amigo, mesmo antes de sair para o encontro, “...mas agora vamos ver como será na realidade”. “Estás com esperanças de alguma coisa?”, perguntou o amigo. “Esperanças? De quê?? Eu sei lá o que vai acontecer!... Depois telefono-te a contar como foi. Mas por favor não contes isto a ninguém. Mesmo ninguém!!”



Xavier começara por brincadeira. Até ao momento em que lhe fez a fatídica pergunta, tinha sempre considerado essas coisas como uma brincadeira. Mas quando viu a resposta dela, lembrou-se de imediato da sua adolescência. Aquele local tinha tantas histórias na memória de Xavier (algumas que já nem esperava recordar-se!) que, assim que o reconheceu, despoletou em si uma série de emoções.

Nesse instante, Xavier decidiu que com Sara – ou D-Girl, como a conhecia ainda – seria diferente.

Parece ridículo, dizer que tudo começou por aquela frase, “Dd tc?”, mas... bem, já se viram coisas mais estranhas.......

Trocaram as costumeiras perguntas, num tom que (principalmente!) em expressão escrita soou pouco temerário. Mas ao falarem de tudo e de nada, um pensamento assaltou Xavier: “E se falássemos em privado?”. Estremeceu nessa altura, quando viu no ecrã essas mesmas palavras, escritas por Sara sem erros ortográficos (“muito bem!!”).

Começou a sentir algo relacionado com o destino. “Que raio de ideia, é só uma coincidência!”

Conversaram por mais 15 minutos (estavam a essa distância da hora de saída de Sara), e ficaram promessas de mais encontros. Da mesma forma, ainda, claro.

Aconteceu – mas só mais uma vez. Xavier deu por si a escrever o seu telefone e a enviar. Sara, perplexa, agradeceu. E prometeu que havia de telefonar “um dia destes”.

Xavier para Xavier: “Burro, parvo, deitaste tudo a perder!” (“Mas afinal, tudo o quê???)

Estupefacto, 5 ou 6 dias após este acto, Xavier atende e ouve a voz de Sara.

Xavier para Xavier: “Nem acredito!!”

“blá, blá, blá” (ou “banal, banal, banal”), e a conversa correu optimamente.

Sara para Xavier: “Sim, sim, podes guardar o meu número. Estás à vontade.”

Noite seguinte. Xavier toma coragem e marca o número. Quatro toques. Ela atende. “Sara? Olá, daqui é o Xavier.” (“Lembras-te de mim??”)
E foi assim por 4 noites seguidas, por mais ou menos tempo, de 4 a 16 minutos. Finalmente, ele ganhou coragem: “Vamos beber café amanhã?”.


(continua)
publicado por ladoc às 17:51
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